Pertencimento

O único medo que tenho é de quem sou quando não tenho medo de nada.

Sinto em meus dedos uma tremedeira que só a elevação de ser quem é requisitada pelo mundo pode causar. Pertencimento. Eu pertenço ao que fiz ontem, ao que faço agora, a onde me levarei amanhã. Pertenço as meditações librianas e aos impulsos sagitarianos, que tanto vermelho impõem em minha visão. Vermelho vivo, vermelho bordô, vermelho de quem sabe como sangra e o que fazer para estancar a veia que chora. Eu nasci pra ser quem sou agora. Eu nasci pra ter as conversas que tenho, pra questionar o que questiono, pra relevar o que relevo. É só matéria. Seja por aí sentindo o álcool circulando em meu sistema nervoso, formigando minha cabeça em áreas específicas e entortando meus dedos em ângulos que não são meus, eu nasci pra estar ali. Seja deitada no chão sujo de uma casa que reconheço cada vez mais como ninho, que me oferece as ambições e as asas pra me fazer voar mais alto, eu nasci pra estar ali.

Sonho que encontro pessoas, só para encontrá-las horas depois. Sonho que pessoas morrem, só para acordar com terceiros me avisando que as pessoas morreram. O tempo falou comigo esses anos inteiros, sabendo que eu estava distraída com todas essas pessoas ao meu redor. Porque eu nasci pra reparar nelas. E hoje colho o que plantei pra mim. Flor por flor, espinho por espinho, degrau por degrau. Eu nunca estou na contra mão. Meu mapa é torto, risonho e brincalhão, e gosta de fortalecer minhas pernas me fazendo dar voltas pra ver tudo em todos os ângulos que existem pra se ver. Eu nasci pra ser assim. Minha, e de mais ninguém. Passageira nessa terra que me olha a gargalhar, esperando eu responder os diálogos que ela tem comigo.
Pertencimento. Achamos isso nos detalhes mais antigos que nos observam evoluir dentro de quem sempre fomos. O mais atento de todos está no útero de minha mãe.

received_10209886326104452Mãe alimenta cria. Eva Cruz.

O caos em 2017

Minha casa anda por obras.

O grande mestre da construção, um senhor que gosta do meu café e morou por uns tempos em Portugal, dia desses me pegou com um comentário muito do superficial. Era a caótica e quente hora do almoço, pessoas escovando os dentes e organizando objetos correndo por todos os lados, eu arrastando a mochila de rodinhas escolar do filho pra lá e pra cá como se isso fosse me salvar do atraso pavoroso de quem gosta de estar uma boa meia hora adiantada em tudo que faz. Ele riu me olhando entre um ordem e outra que dirigia à sua equipe.

– Vai pegar um voo? Parece que ta correndo por um aeroporto. – comentou debochado numa simpatia que nunca saberei espelhar para um homem forasteiro que sabe onde moro. Mas ri, verdadeira. Mal sabia ele, pobre seu Antonio – que viria a ser assaltado neste mesmíssimo dia algumas horas mais tarde – que eu estava prestes a pisar numa sala de aula cheia de meus Erês pela primeira vez em meses, pelo que me parecia ser a primeira vez em toda uma nova vida que se desenrolava ao meu redor, saída de meu próprio útero e fruto de novos perdões e permissões entregues por mim mesma. Mal sabia seu Antonio que um casulo que tao metodicamente teci por anos sob meus membros e articulações, sob meus olhos, ouvidos e boca, se desfazia ao meu redor, estourando e polvorizando couros inúteis e peles que se trocavam conforme os sons da natureza, tudo com o sutilmente violento comando da sincronicidade que sopra pra longe e suga pra perto tudo que dança existência afora. Mal sabíamos que, ainda que existisse uma pressa faminta em meus passos, de quem sabe para onde quer ir, uma bonança tranquilizante se apoderou do que há dentro de mim em meio ao turbilhão de 2017, onde perdi, ganhei, me livrei e abdiquei.

Foi no caos do ano de 2017 que me descobri sentindo coisas que pessoas me falaram que sentiria um dia. Foi na anarquia, na desordem e na perturbação que encontrei o instinto cru de que caminho, de que me renovo, de que estamos aqui para ser mais que uma pessoa para todas as pessoas que cruzam nossos passos neuróticos por aí. Nunca apenas com a simpatia. Nunca apenas com o amor. Acredito piamente que devemos existir além desses sentimentos que tornamos tao divinos. Que absurdo, chamar de milagre, de cura, de algo acima de nós algo que é tao intrinsecamente de nossa natureza. Natureza essa tao mais complexa do que amores e divindades afetivas! Somos feitos de e para um mundo de raiva, de injustiça, de álibis e horrores. Somos feitos de crimes e castigos, para então buscarmos as grandes lições do perdão, da penitencia em sermos quem juramos ser, da boca salivante e gritante que quer ser parte de algo que salve esse mundo de nós. Antes de nos salvarmos desse mundo, que salvemos esse mundo de nós! Antes do amor, o horror do real! Foi no caos de 2017 que desengoli minha falácia de “entendo meus limites” e passei a vive-los, respeitando a mutabilidade de quem sou e de onde estou. Meus limites dançam, sabidos de onde estão a me levar e os caminhos que encontro em meu futuro. Que se foda o carpe diem de quem aproveita o presente com dedos agarrados de forma intrometida; eu vivo atemporal. Sem medo da mortalidade de meu ego, de quem sou quando estou sozinha, pois foi no caos de 2017 que finalmente me deixei ser possuída pela certeza de que as reencarnações que interessam pra essa natureza que só nos vê passando são coletivas, ideias e lutas que viverão além de nosso tempo humano neste plano.

Sigo espalhando a boa nova: coragem é mais do que dar o primeiro passo em direção ao que se quer. A verdadeira bravura, que diferencia massas de pontos de luz, está em lidar com as consequências deste tao demorado primeiro passo.

– Bom voo! – gritou seu Antonio quando finalmente saí de casa, se equilibrando em cima do andaime que montara em minha sala de estar. Mal sabia.

caos

Regida por Vênus

Libriana e camoniana. Vouyer e flâneur de romances e decepções, em toda minha melancolia baudelairiana. Feita do amor, com amor e para o amor, mas de maneira injusta. É que não nasci para aprender nada disso, ignorante ser humano que poderia ter vindo a ser se não  me certificasse tanto de saber os porquês que me cercam, mas acabei aprendendo que amo amar o amor. Tão, tão camoniana.
Entretanto, quantos outros não se descobriram camonianos independentes de Camões? Love loves to love love, ensinou Joyce, e eu entendo! Entendo, entendo a dor de não entender porque sofrer de amor sem amar nem ser amada. Amo o amor, que é como uma característica física em mim, manifestado por sorrisos silenciosos ou brilhos nas íris, batuques de dedos ou calafrios longínquos, e me perdoem os cupidos, mas de natureza tao ilusionista. Iludo, iludida, alucinatoriamente acreditando amar os corpos físicos carregadores das almas de quem conheço, ainda que consciente de meu mais ecoante e subterrâneo canto, que de tempo em tempo me sussurra que não amo corpo algum. Jamais poderei os amar. Amo almas, que nem ao menos sabem do poder que têm perante suas próprias carnes. Amo as versões que construo de cada uma dessas almas dentro de mim, em meus cenários planejados e em minhas fantasias amadoras. Meu mundo virtual por vezes é tao mais intenso do que meu mundo real que não sei separar um do outro; não sei qual clamo como versão que inventei e qual clamo como versão que o destino tão ocasionalmente me deu, me implorando para por favor amar certo dessa vez. Por favor, se deixe ser amada. Seja humana. Seja a carne que até o mais diabólico anjo gostaria de ter sido.
Deitada no chão com os pés para as nuvens enquanto percebo meu tempo passar, sorrio, me perguntando se Camões também se consolava romantizando seus traumas. Isso, porém, é outra coisa que não nasci para aprender.

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A órbita em resistir

Resiliência

substantivo feminino

  1. 1.

fís propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.

  1. 2.

fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

Substantivo e feminino.

A gente é cria da fronteira. Cresci com a gente, que dividia sangue, suor e tardes caminhando até a locadora mais próxima, sabendo que os colos umas das outras nos seriam sempre ponto de descanso pós momentos de energias gastas – tanto as boas quanto as ruins. Trançamos nossos cabelos, falamos sobre os homens da família que estão nos dando nos nervos atualmente, fomos manicure e cabeleireira umas das outras de domingo a domingo, todo esse sistema de informação com um ponto central que nos bombeava os ritmos e as forças: casa da vó.

Casa enorme, concretada. Com balanço de aço e árvores frutíferas dando os tons gritantes dos dias de cores saturadas e nuvens enormes com formato de bichos e piratas. A gente é cria do cerrado. O nariz sente o cheiro da chuva que tá dois dias no futuro, a pele sente a mudança crítica de calor pra frio que ta pra acontecer no fim da tarde, os olhos bem treinados de criança sabem nomes e padrões de brilho de constelações e satélites. Olha lá mais um em órbita!, a gente grita uma pra outra, e um momento de profunda quietude segue enquanto encaramos aquele ponto contínuo traçar seu rastro ao redor da casa de nossa vó, centro de uns vários universos inteiros.

Eu vejo padrões. Em todas as mulheres que conheci pela vida, procuro, quieta, sinais de que elas viveram algo similar a mim. Vejo uma expressão facial de tranquilidade e conforto que me faz enxerga-las como a criança que um dia foram, cobertas de terra vermelha nos poros e com os cabelos bagunçados por aí. Como mulher, tento traçar meus próprios paralelos com a menina que um dia já fui, ignorando os paralelos perturbados e pervertidos que a sociedade faz por si só, sem meu consentimento. Tenho músculos menos fortes e hábitos mais ruinosos, mas tenho a mesma vontade de conhecer mais gente por aí. Até hoje, quando acho um satélite em órbita no céu do cerrado brasileiro, o lugar mais bonito de todo esse mundo, faço paralelos com o que pensava miúda, descalça na varanda de azulejos gelados da casa de minha avó: tem tanta coisa acontecendo nesse mundo agora. E eu preciso estar nelas. Tem tanta gente fazendo o mundo de mais gente. E quero aprender com elas. É trabalho árduo, se entregar para a colmeia e sua vivência neurótica, suas pessoas vítimas de um viver que nos deixam a refém de tanta coisa destrutiva, e seguir tendo fé no bem que isso tem pra dar. Mas a gente é melhor quando a gente é junto. Mesmo na individualidade, mesmo nos choques de ideais, mesmo quando nos vemos na mesma situação que juramos evitar pro resto dessa vida: a gente é melhor quando a gente tenta de novo.

Resiliência. Deixar-se ser dobrada pela força dos eventos, e lentamente se deparar com seu reflexo tomando forma novamente. Desejo força à todas as pessoas desse “a gente” que é tão novo nisso tudo que podemos ser.

11-resilience-photo-transfer-silkscreen-acrylic-on-paper-size-11-x-14-inches-rs-45000Usman Ghauri

Sobre ser mãe na adolescência…

Engravidei aos 19 e, sinto que muito do que fui nesse numeral reina parte de meu corrente corpo de um quarto de século até hoje.

Tal circunstancia é um de meus grandes inimigos pessoais. Por tempos, senti medo de perder uma juventude sonhada desde as janelas banguelas nas gengivas, e, por outros, vivi em desespero essa mesma juventude como quem não podia existir realmente de tal forma. “A mudança é tão da noite pro dia!”, escutei minha própria voz falar tantas vezes quando me falavam sobre a metamorfose da maternidade. E foi genuíno. Continua sendo genuíno. Desde o dia em que meu rebento nasceu com cara de fome, muito antes do momento previsto para rebentar – “mudança de fases na lua, Ana… o bebê desce mesmo” -, me vi nova pessoa, com uma mente infestada de memórias de outras mulheres: as que fui antes e as que me via sendo no depois que viveria em uma vida em que engravidar não estava planejado para acontecer. Como se vive uma realidade dessas sendo tão analista de emoções como sou? Que transição complexa, viver por uma terceira pessoa depois de ter virado uma segunda. “Do dia pra noite”! Até hoje sinto as mudanças do dar a luz se arrastando pelo corpo e pela mente, numa metamorfose instantânea, porém, infinita. Nunca acaba. Até o dia em que sair desta vida milagrosa e espetacular que me foi dada de presente para viver tal metamorfose, sentindo o rasgar nas costas e o perceber que provavelmente me são asas, simultaneamente. Eu saio de mim quando penso em meu filho. Logo eu, que sou de escrever o que me passa pelo espírito por me sentir mais confortável com a língua escrita do que com a falada, perco o controle da anatomia vocal, e comunico por brilhos e sorrisos. Eu finco as raízes no subsolo da vida quando penso em meu filho, em seus dedos me procurando a noite pra dormir sabendo que estou ali, em sua moleira careca dos primeiros meses, em suas próprias janelas banguelas de uma gengiva que nem ao menos começou a pensar sobre perder dentes de leite.

É-me atemporal, ser mãe. Brinco com pretéritos, presentes e futuros, e sou todas elas ao mesmo tempo. Pensar no melhor momento pra falar, pensar em dar o que nunca te deram, querer que viva o que você vê como algo lindo de viver… E entender que muito provavelmente ele vai achar algo lindo pra viver que reinventará tudo que tenho como beleza.

Gosto de como me tira da zona do conforto, ser mãe. Gosto de como me ensina a conviver com o diferente, e a confiar que meu filho vá fazer seus próprios julgamentos sobre as diferentes realidades que o cercam. Gosto do nosso ascendente em sagitário. Gosto de sua lua em câncer, que lhe rende todo um parágrafo sobre “A Mãe” no mapa astral. Sobre tudo: gosto de amar o filho que tenho.

Comparo o texto que escrevo hoje com a carta que escrevi para Luis Augusto em seu primeiro mês de vida. Gosto das diferenças entre ambas. Gosto de me lembrar que em meu filho, pari meu melhor amigo.

À MEU FILHO LUIS AUGUSTO: UM MÊS
     Ternura infinita, e pensar que você já tivera outro destino! Nunca foi tão certo amar, nunca foi tão inexplicável tentar falar sobre um sentimento… A coisa mais bela do mundo é você, Guta, nos poucos detalhes que já me deu nesse apenas um mês de vida completo hoje, e que venham mais milhões de meses, em milhões de vidas. Amo, com a perplexidade de outro infanto, seu rosto que de joelho nunca teve nada, seus olhos que de verde eu juro que as vezes tem algo, suas mãos do bisavô, seus nariz do pai, sua cara de muito bravo (provavelmente da mãe)… Amo em muito tudo! Amo em tudo muito! A certeza de que você vai estar sempre ao meu lado é a coisa mais linda de se afirmar, mesmo quando são quatro da manhã e eu tenho que acordar ao som do seu choro, tendo ido conseguir dormir às três e meia. Juro te educar e te amar com o mesmo carinho que jurei todas as vezes em que sonhei ser mãe. Mas sobre tudo, eu te juro que nunca quis na vida que alguém fosse feliz como quero que você seja. Quero te dar tudo, quero mimá-lo de um jeito que eu me arrependa depois (mas só um pouco), quero estar ao seu lado na primeira palavra, na primeira andada, na primeira escola, no primeiro coração partido… Quero ser amiga mãe, viver por você tudo que não pude viver por ser mulher, te ajudar tanto, mas tanto, que você vá se irritar! Quero seus sorrisos sempre, e quando acontecer uma lágrima, quero-a pra mim também, em meu peito, para limpá-la para bem longe de você. Quero pra você honra, respeito, amor, felicidade… Quero-o homem. Quero em você, tudo que sonhei nos outros. Quero você com a mesma sinceridade que quero minha mãe, meu pai, meus irmãos, seu pai, seus avós, sua família. Quero que você veja nesse círculo de pessoas, sempre braços abertos. Sempre, sempre um lar sem muros. Quero logo você.
     Feliz primeiro ‘mesverário’. Com TODO amor, mamãe.
27-05-12
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Carta para Eva

Voltei a ter cores. Minha pele despertou dourada, queimada pelas estrelas gigantes que me cercam com membros que me abraçam e olhos que esperam pacientemente meu tempo trazer minhas próprias realizações sobre as vidas que vivo milagre afora. Voltei a andar sorrindo pro nada, voltei a olhar pro espelho e sentir admiração que todos devemos sentir em relação a nós mesmos. Meu corpo físico segue carregando traumas e marcas do que passei, mas minh’alma dança leve, certa do lugar que ocupa no mundo. Eu nasci pra ser forte. Eu nasci pra passar pelo desumano, pra me entregar pra escuridão da meia noite mais gélida… Só pra ver o sol nascer e tudo florir de novo. E estender a mão para as que querem atravessar a noite também.

Nunca nasci homem, me disseram. E minh’alma sempre soube disso. Eu sou mulher.

Eu to aqui pra encarar, fazer escolhas e lidar com o que vem depois. Isso é coragem. Não apenas a força necessária pra fazer uma escolha… Mas a força para lidar com a dor que vem depois.

São novos galhos crescendo.

hananLa nuit, je dors debout by Hanan Kazma.

Um organismo e seu infinito

Poucas vezes estive de frente a mim.

Não me encontro no reflexo do espelho decorado de meu banheiro, nem no reflexo escuro do café que sempre encaro longinquamente antes de bebê-lo inteiro. Não me encontro nos risos que causo, nas lagrimas que limpo ou nos passos rápidos que insisto em dar para onde quer que vá. Por um tempo, achei que me encontrava no brilho perolado do sorriso de minha cria, mas hoje sei que foram relances clandestinos, me enganando. Veja bem; na gargalhada de meu filho, sou quem melhor pude ser para ele. Conheço bem as pessoas que sou para os outros e me cruzo com elas infinitamente, a cada respirar humano que infla esse planeta. Sinto-me o macacão do Homem Duplicado, camaleando-me para melhor perambular o mundo e convidar o mundo a perambular em mim. É tão arisco, o ser humano! Demoramo-nos umas boas três, quatro máscaras até sentirmos conforto e relaxemos um pouco perante expectativas sociais. Tenho poucos amigos que viram a verdadeira eu e permanecem em minha rotina e, até entre nós, que verdadeiramente amamos uns aos outros além romantização, temos que ter cuidado de tempo em tempo. Afinal, meu Eu de agora é além do que Eu fui cinco minutos atrás, e constantemente tento lembrar que o mesmo vale aos Eles que me cercam. Quão largo é o abismo entre o que vemos e o que nos deixam ver?

Poucas vezes estive de frente a mim. A última vez foi em um banho triste, a água quente enrubescendo minhas costas largas, o corpo nu se abraçando sem perceber, os olhos tão fechados para chorar em paz que, como quem sente saudade de si, abri um terceiro olho, localizado na parede de piso do meu banheiro, e me vi. Vi meu rosto, que vejo poucas vezes por dia. Vi o ângulo que minha espinha faz em minha lombar quando estou parada de costas. Vi que estava com os nós dos dedos brancos, tamanha a força que usava para me agarrara dentro do jato d’água. Vi que tenho os olhos de meu filho. Vi que tenho os cabelos de minha falecida avó. Vi que um dia terei uma filha que me ensinará mais sobre ser e respeitar mulher do que qualquer feminismo que passei a vida a estudar por ela e por mim. Vi que sou o homem dos romances que li, não a mulher, e vi que quando tinha três anos, senti o cheiro de sala de aula pela primeira vez – aquela mistura de E.V.A. colorido, giz branco girando pelos ares em um furacão que eu enxergava no ventilador de teto e suor de professora que correu pra pegar ônibus… Eu me vi. Existo onde não existe tempo e espaço quando me vejo. Como um hiperventilar quando se escreve frenética, como encarar um homem na rua enquanto ele pensa numa cantada rude pra te mandar até que ele perca a voz, como lembrar de uma memória de infância pela primeira vez. Quando consigo prolongar o momento suficientemente, vejo meu corpo virar um jogo de sombras e passo a ser um prisma, com meu corpo criança, meu corpo adulto e meu corpo de idosa que posso ou não vir a ser. Queria lembrar aos que se interessam sobre a importância em se buscar dentro de si. Seja um momento de pura tristeza, felicidade, incerteza ou anestesia completa… Fechemos os olhos e procuremos nos ver além de reflexos materiais e idealizações sociais.

Ergo meus olhos e encaro as nuvens do fim da tarde, as quais me leem o relato sobre meus ombros nus.

– Você se vê como a célula única de vida que a gente diz ver em você?, pergunto ao mundo.

A primeira mancha rosa do pôr do sol aquarela horizonte. Um mundo corado de vergonha ao olhar pra si e debater com seus fragmentos.

acidAna Espinosa Horn, 25 anos, acadêmica de Letras e professora de língua inglesa. Brincando de desmontar signos e significados desde antes da puberdade.