O caos em 2017

Minha casa anda por obras.

O grande mestre da construção, um senhor que gosta do meu café e morou por uns tempos em Portugal, dia desses me pegou com um comentário muito do superficial. Era a caótica e quente hora do almoço, pessoas escovando os dentes e organizando objetos correndo por todos os lados, eu arrastando a mochila de rodinhas escolar do filho pra lá e pra cá como se isso fosse me salvar do atraso pavoroso de quem gosta de estar uma boa meia hora adiantada em tudo que faz. Ele riu me olhando entre um ordem e outra que dirigia à sua equipe.

– Vai pegar um voo? Parece que ta correndo por um aeroporto. – comentou debochado numa simpatia que nunca saberei espelhar para um homem forasteiro que sabe onde moro. Mas ri, verdadeira. Mal sabia ele, pobre seu Antonio – que viria a ser assaltado neste mesmíssimo dia algumas horas mais tarde – que eu estava prestes a pisar numa sala de aula cheia de meus Erês pela primeira vez em meses, pelo que me parecia ser a primeira vez em toda uma nova vida que se desenrolava ao meu redor, saída de meu próprio útero e fruto de novos perdões e permissões entregues por mim mesma. Mal sabia seu Antonio que um casulo que tao metodicamente teci por anos sob meus membros e articulações, sob meus olhos, ouvidos e boca, se desfazia ao meu redor, estourando e polvorizando couros inúteis e peles que se trocavam conforme os sons da natureza, tudo com o sutilmente violento comando da sincronicidade que sopra pra longe e suga pra perto tudo que dança existência afora. Mal sabíamos que, ainda que existisse uma pressa faminta em meus passos, de quem sabe para onde quer ir, uma bonança tranquilizante se apoderou do que há dentro de mim em meio ao turbilhão de 2017, onde perdi, ganhei, me livrei e abdiquei.

Foi no caos do ano de 2017 que me descobri sentindo coisas que pessoas me falaram que sentiria um dia. Foi na anarquia, na desordem e na perturbação que encontrei o instinto cru de que caminho, de que me renovo, de que estamos aqui para ser mais que uma pessoa para todas as pessoas que cruzam nossos passos neuróticos por aí. Nunca apenas com a simpatia. Nunca apenas com o amor. Acredito piamente que devemos existir além desses sentimentos que tornamos tao divinos. Que absurdo, chamar de milagre, de cura, de algo acima de nós algo que é tao intrinsecamente de nossa natureza. Natureza essa tao mais complexa do que amores e divindades afetivas! Somos feitos de e para um mundo de raiva, de injustiça, de álibis e horrores. Somos feitos de crimes e castigos, para então buscarmos as grandes lições do perdão, da penitencia em sermos quem juramos ser, da boca salivante e gritante que quer ser parte de algo que salve esse mundo de nós. Antes de nos salvarmos desse mundo, que salvemos esse mundo de nós! Antes do amor, o horror do real! Foi no caos de 2017 que desengoli minha falácia de “entendo meus limites” e passei a vive-los, respeitando a mutabilidade de quem sou e de onde estou. Meus limites dançam, sabidos de onde estão a me levar e os caminhos que encontro em meu futuro. Que se foda o carpe diem de quem aproveita o presente com dedos agarrados de forma intrometida; eu vivo atemporal. Sem medo da mortalidade de meu ego, de quem sou quando estou sozinha, pois foi no caos de 2017 que finalmente me deixei ser possuída pela certeza de que as reencarnações que interessam pra essa natureza que só nos vê passando são coletivas, ideias e lutas que viverão além de nosso tempo humano neste plano.

Sigo espalhando a boa nova: coragem é mais do que dar o primeiro passo em direção ao que se quer. A verdadeira bravura, que diferencia massas de pontos de luz, está em lidar com as consequências deste tao demorado primeiro passo.

– Bom voo! – gritou seu Antonio quando finalmente saí de casa, se equilibrando em cima do andaime que montara em minha sala de estar. Mal sabia.

caos

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