A órbita em resistir

Resiliência

substantivo feminino

  1. 1.

fís propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.

  1. 2.

fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

Substantivo e feminino.

A gente é cria da fronteira. Cresci com a gente, que dividia sangue, suor e tardes caminhando até a locadora mais próxima, sabendo que os colos umas das outras nos seriam sempre ponto de descanso pós momentos de energias gastas – tanto as boas quanto as ruins. Trançamos nossos cabelos, falamos sobre os homens da família que estão nos dando nos nervos atualmente, fomos manicure e cabeleireira umas das outras de domingo a domingo, todo esse sistema de informação com um ponto central que nos bombeava os ritmos e as forças: casa da vó.

Casa enorme, concretada. Com balanço de aço e árvores frutíferas dando os tons gritantes dos dias de cores saturadas e nuvens enormes com formato de bichos e piratas. A gente é cria do cerrado. O nariz sente o cheiro da chuva que tá dois dias no futuro, a pele sente a mudança crítica de calor pra frio que ta pra acontecer no fim da tarde, os olhos bem treinados de criança sabem nomes e padrões de brilho de constelações e satélites. Olha lá mais um em órbita!, a gente grita uma pra outra, e um momento de profunda quietude segue enquanto encaramos aquele ponto contínuo traçar seu rastro ao redor da casa de nossa vó, centro de uns vários universos inteiros.

Eu vejo padrões. Em todas as mulheres que conheci pela vida, procuro, quieta, sinais de que elas viveram algo similar a mim. Vejo uma expressão facial de tranquilidade e conforto que me faz enxerga-las como a criança que um dia foram, cobertas de terra vermelha nos poros e com os cabelos bagunçados por aí. Como mulher, tento traçar meus próprios paralelos com a menina que um dia já fui, ignorando os paralelos perturbados e pervertidos que a sociedade faz por si só, sem meu consentimento. Tenho músculos menos fortes e hábitos mais ruinosos, mas tenho a mesma vontade de conhecer mais gente por aí. Até hoje, quando acho um satélite em órbita no céu do cerrado brasileiro, o lugar mais bonito de todo esse mundo, faço paralelos com o que pensava miúda, descalça na varanda de azulejos gelados da casa de minha avó: tem tanta coisa acontecendo nesse mundo agora. E eu preciso estar nelas. Tem tanta gente fazendo o mundo de mais gente. E quero aprender com elas. É trabalho árduo, se entregar para a colmeia e sua vivência neurótica, suas pessoas vítimas de um viver que nos deixam a refém de tanta coisa destrutiva, e seguir tendo fé no bem que isso tem pra dar. Mas a gente é melhor quando a gente é junto. Mesmo na individualidade, mesmo nos choques de ideais, mesmo quando nos vemos na mesma situação que juramos evitar pro resto dessa vida: a gente é melhor quando a gente tenta de novo.

Resiliência. Deixar-se ser dobrada pela força dos eventos, e lentamente se deparar com seu reflexo tomando forma novamente. Desejo força à todas as pessoas desse “a gente” que é tão novo nisso tudo que podemos ser.

11-resilience-photo-transfer-silkscreen-acrylic-on-paper-size-11-x-14-inches-rs-45000Usman Ghauri

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