Sobre ser mãe na adolescência…

Engravidei aos 19 e, sinto que muito do que fui nesse numeral reina parte de meu corrente corpo de um quarto de século até hoje.

Tal circunstancia é um de meus grandes inimigos pessoais. Por tempos, senti medo de perder uma juventude sonhada desde as janelas banguelas nas gengivas, e, por outros, vivi em desespero essa mesma juventude como quem não podia existir realmente de tal forma. “A mudança é tão da noite pro dia!”, escutei minha própria voz falar tantas vezes quando me falavam sobre a metamorfose da maternidade. E foi genuíno. Continua sendo genuíno. Desde o dia em que meu rebento nasceu com cara de fome, muito antes do momento previsto para rebentar – “mudança de fases na lua, Ana… o bebê desce mesmo” -, me vi nova pessoa, com uma mente infestada de memórias de outras mulheres: as que fui antes e as que me via sendo no depois que viveria em uma vida em que engravidar não estava planejado para acontecer. Como se vive uma realidade dessas sendo tão analista de emoções como sou? Que transição complexa, viver por uma terceira pessoa depois de ter virado uma segunda. “Do dia pra noite”! Até hoje sinto as mudanças do dar a luz se arrastando pelo corpo e pela mente, numa metamorfose instantânea, porém, infinita. Nunca acaba. Até o dia em que sair desta vida milagrosa e espetacular que me foi dada de presente para viver tal metamorfose, sentindo o rasgar nas costas e o perceber que provavelmente me são asas, simultaneamente. Eu saio de mim quando penso em meu filho. Logo eu, que sou de escrever o que me passa pelo espírito por me sentir mais confortável com a língua escrita do que com a falada, perco o controle da anatomia vocal, e comunico por brilhos e sorrisos. Eu finco as raízes no subsolo da vida quando penso em meu filho, em seus dedos me procurando a noite pra dormir sabendo que estou ali, em sua moleira careca dos primeiros meses, em suas próprias janelas banguelas de uma gengiva que nem ao menos começou a pensar sobre perder dentes de leite.

É-me atemporal, ser mãe. Brinco com pretéritos, presentes e futuros, e sou todas elas ao mesmo tempo. Pensar no melhor momento pra falar, pensar em dar o que nunca te deram, querer que viva o que você vê como algo lindo de viver… E entender que muito provavelmente ele vai achar algo lindo pra viver que reinventará tudo que tenho como beleza.

Gosto de como me tira da zona do conforto, ser mãe. Gosto de como me ensina a conviver com o diferente, e a confiar que meu filho vá fazer seus próprios julgamentos sobre as diferentes realidades que o cercam. Gosto do nosso ascendente em sagitário. Gosto de sua lua em câncer, que lhe rende todo um parágrafo sobre “A Mãe” no mapa astral. Sobre tudo: gosto de amar o filho que tenho.

Comparo o texto que escrevo hoje com a carta que escrevi para Luis Augusto em seu primeiro mês de vida. Gosto das diferenças entre ambas. Gosto de me lembrar que em meu filho, pari meu melhor amigo.

À MEU FILHO LUIS AUGUSTO: UM MÊS
     Ternura infinita, e pensar que você já tivera outro destino! Nunca foi tão certo amar, nunca foi tão inexplicável tentar falar sobre um sentimento… A coisa mais bela do mundo é você, Guta, nos poucos detalhes que já me deu nesse apenas um mês de vida completo hoje, e que venham mais milhões de meses, em milhões de vidas. Amo, com a perplexidade de outro infanto, seu rosto que de joelho nunca teve nada, seus olhos que de verde eu juro que as vezes tem algo, suas mãos do bisavô, seus nariz do pai, sua cara de muito bravo (provavelmente da mãe)… Amo em muito tudo! Amo em tudo muito! A certeza de que você vai estar sempre ao meu lado é a coisa mais linda de se afirmar, mesmo quando são quatro da manhã e eu tenho que acordar ao som do seu choro, tendo ido conseguir dormir às três e meia. Juro te educar e te amar com o mesmo carinho que jurei todas as vezes em que sonhei ser mãe. Mas sobre tudo, eu te juro que nunca quis na vida que alguém fosse feliz como quero que você seja. Quero te dar tudo, quero mimá-lo de um jeito que eu me arrependa depois (mas só um pouco), quero estar ao seu lado na primeira palavra, na primeira andada, na primeira escola, no primeiro coração partido… Quero ser amiga mãe, viver por você tudo que não pude viver por ser mulher, te ajudar tanto, mas tanto, que você vá se irritar! Quero seus sorrisos sempre, e quando acontecer uma lágrima, quero-a pra mim também, em meu peito, para limpá-la para bem longe de você. Quero pra você honra, respeito, amor, felicidade… Quero-o homem. Quero em você, tudo que sonhei nos outros. Quero você com a mesma sinceridade que quero minha mãe, meu pai, meus irmãos, seu pai, seus avós, sua família. Quero que você veja nesse círculo de pessoas, sempre braços abertos. Sempre, sempre um lar sem muros. Quero logo você.
     Feliz primeiro ‘mesverário’. Com TODO amor, mamãe.
27-05-12
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