#StayYellow: Ajude.

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(fonte: tumblr)

Não sei por onde começar esse texto. Falar sobre algo como suicídio é tão delicado de tantas formas. Não se quer machucar quem foi surpreendido por um caso próximo, não se quer motivar quem esteja pensando nessa possibilidade. Só de imaginar que eu poderia ser um gatilho, quero parar por aqui. Dentro de mim, eu sinto que é de uma responsabilidade enorme ser convidada a escrever sobre isso. Tão grande que eu mal sei se sou capaz de lidar com ela. Mas sei que é necessário.

Essa foi uma semana difícil para muitos. Acompanhei algumas reações com o peito apertado e uma vontade imensurável de abraçar todos que sofreram com as notícias, com as descrições e os depoimentos, com o choque de se ter alguém tão perto fazendo algo tão extremo. E eu também sofri. Não a conhecia, mas saber que ela estava tão próxima de mim já me trouxe uma sensação terrível de culpa e abandono. Não faz muito sentido, eu sei. Como eu disse, mal a conhecia. Mas quando penso que estava a passos de poder ajudá-la, eu desabo. Desabo porque penso que eu poderia ter estado lá. Desabo porque sei que não era impossível de impedi-la de fazer o que fez.

Quando se para pra pensar em motivos para alguém tirar a própria vida, nada parece ser o bastante. E nunca é, para falar a verdade. Mas na hora, para quem está lá, é o peso de um mundo inteiro em cima das costas. É uma sensação de sufoco que não parece ser possível de se desfazer, tudo porque já se aguentou tanta tristeza por tanto tempo. Nada parece claro. Ninguém parece se importar. E então, existe a possibilidade de você se livrar dessa tristeza. Esse pensamento vai além do medo, além do que uma pessoa completamente sã é capaz de raciocinar. É um pensamento de alguém que está doente. E ninguém entende isso. Ninguém percebe isso antes de ser tarde demais.

E aqui estou eu, falando de depressão de novo. De uma forma um pouco mais didática, eu espero, não apenas em uma narrativa angustiante de se acompanhar, como foi o meu texto sobre a visita surpresa que a doença me faz de tempos em tempos. Tratar a depressão como uma doença de fato, dar a ela sua devida importância, compreender que, assim como um câncer, a depressão também é capaz de se alastrar, é impedir um suicídio de acontecer. E nossa, isso é mais do que o suficiente.

É preciso entender que a depressão está além do nosso controle, que não se escolhe tê-la para fazer um charminho. Acredite, quem realmente tem depressão não desejaria isso a ninguém. É preciso entendê-la como uma doença que distorce os nossos pensamentos, a nossa personalidade. Entender que ela é forte o suficiente para nos levar a considerar fazer mal ao nosso próprio corpo, e pensar que a dor física vai ser menor do que toda a dor emocional que sentimos o tempo todo. Uma dor tão poderosa que nos paralisa, quase que literalmente.

É preciso aceitar que pessoas depressivas precisam ser amparadas. Aceitar que, assim como todas as outras doenças que existem e podem matar, a depressão também pode matar, e, portanto, precisa de um tratamento. Educar os outros quanto à gravidade dessa doença nunca foi tão necessário, principalmente quando ela já ocupa a mente de 11,5 milhões de pessoas no nosso país (OMS/fevereiro de 2017), quase seis por cento da nossa população total. Um número gritante e triste de se ver.

Sei que eu não fui a única que me senti culpada por não conseguir enxergar a situação de uma pessoa que precisava urgentemente de ajuda. Eu estava longe dela, mas sei que muitos estavam bem mais perto e têm mais motivos para se sentirem tão impotentes. Sei que existem pessoas que acreditam que ela não tinha motivos para fazer o que fez. E realmente, ela não precisava. Mas não porque seu sentimento era inválido. E sim porque havia outra saída. Ninguém disse isso a ela, mas ela conseguiria vencer aquilo. Com todas as suas qualidades, todos os seus trejeitos, ela era capaz de estar aqui hoje e lutar contra o que a frustrava. E ela não estaria sozinha.

Existem pessoas sorridentes em todos os lugares. Existem pessoas gentis, simpáticas, que te elogiam livremente e te fazem sorrir com uma piada ou um abraço. Essas pessoas têm os seus problemas. Essas pessoas se escondem porque acham que não há quem as ajude. Eu preciso ser quem ajuda. Você precisa ser quem ajuda. É nosso o papel de se construir um lugar seguro em nós para acolher essas pessoas.

Ajudar vai além de impedir uma pessoa de tirar a sua vida. É algo a longo prazo. É se preocupar. É estar lá para ouvir. É perguntar sem que a pessoa precise correr até você. É prezar pela vida dela, abraçar suas tristezas e preocupações como algo que as faz sofrer verdadeiramente, não como puro drama. É mostrar a ela a sua importância para o mundo. Mostrar a ela que ela não está sozinha, e nunca estará.

Sinto que nunca é o bastante falar sobre isso. Existem tantas coisas que podem ser discutidas e postas em prática. Tantos jeitos de se empenhar e criar uma campanha humanizada em relação ao combate ao suicídio. Enquanto penso nisso, tento fazer a minha parte. Faço meus textos, chamo a atenção, uso da minha condição para abrir os olhos de quem ainda não sabe o que faz uma garota de 20 anos pensar em tirar a própria vida. E ao mesmo tempo em que faço isso, eu também olho para os lados. Olho para o caos, para a turbulência, para os problemas. Eu olho para as pessoas. Tento enxergá-las por inteiro. E do jeito que consigo, eu as acolho em meus braços. E assim, nos vejo como uma só.

Então, só esteja lá.

*O CVV funciona como um canal de prevenção ao suicídio. Pessoas que pensam em tirar a própria vida podem fazer contato pelo telefone, pelo número 141, e-mail ou Skype, e até pessoalmente. Os voluntários estão dispostos a ouvir e o sigilo é garantido. Me disponibilizo para conversar com quem quer que precise de ajuda. Você não está sozinho.

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