#StayYellow: A rosa e o grito

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Eu tenho um bico em volta dos lábios que é quase impossível de se disfarçar, mas eu tento. É como se eu tivesse escondendo uma risada de alguma autoridade, mas na realidade, estou expressando o meu aborrecimento. Braços cruzados, sobrancelhas franzidas. Uma figura longe de parecer simpática, perto de soltar fogo pelas narinas. Era o mecanismo de linguagem do meu corpo para transmitir a quem pudesse ver que tudo naquele momento é insuportável para mim. É a única forma que eu tenho de me comunicar sem ser interrompida. É o único resquício de liberdade que eu consigo me acanhar. E apesar disso, eu não espero ser percebida. Seria bom demais para ser verdade.

Ser uma mulher é difícil. Ser uma mulher das palavras, mais ainda. Tive a sorte de nascer com uma língua afiada e dedos capazes de criar mundos. Também nasci com uma rosa entre as pernas, o que poderia ter definido completamente o meu futuro, se eu não tivesse me tornado tão tempestuosa, tão inquieta, tão apaixonada pelas coisas novas e revoltada com os moldes falocêntricos. A minha vida depende da minha expressão. Inteiramente, da forma mais sincera e enlouquecida que se pode imaginar. Eu não sou ninguém se não puder dizer o que sou, o que quero, por onde vim e para onde quero ir. Eu sou a minha voz.

Às vezes eu me odeio por ser assim. Me odeio por não saber calar a boca, me odeio por depender tanto de alguém me ouvindo para ter certeza de que sou interessante. Porque são em momentos como esse, em que eu sou praticamente amordaçada pelos meus próprios lábios, em que um homem tem vontade de pegar brinquedos demonstrativos para me explicar uma coisa que eu sei que sei mais do que ele e posso provar, que eu finjo não me abalar. Eu permaneço firme, rígida, mas por dentro, inútil, desabilitada. Sinto a voz indo embora do meu corpo junto do meu sopro de ar desanimado. A própria Pequena Sereia forçada a assinar um contrato com o termo BURRA abaixo da linha em que eu deveria colocar o meu nome antes de ter a voz roubada. E eu prolongo isso.

A confusão entre querer rebater e não ter forças para isso faz a minha cabeça doer. Abro a boca, pensando em algo que possa surpreender, uma crítica de efeito brilhante sobre literatura e construções de narrativa. Por dentro, me sinto maravilhosa. A mulher mais interessante desse mundo. Alguém que sabe misturar coisas sérias a piadas e memes, que não se prende ao superficial sem levar consigo sua bagagem cultural.

Crio coragem, esbravejo. Espero por uma reação, e recebo em troca o silêncio. Já era de se esperar. E mesmo assim, me sinto péssima.

Então me fecho completamente dentro dos meus pensamentos e dos meus braços cruzados por cima do tronco. Caminhamos pelo saguão do shopping enquanto ele escolhe divagar por seus gostos e interesses, e eu permaneço sozinha dentro de mim. Os minutos passam, e com eles, a minha vontade de estar acordada, ali, do lado de um cara que só está esperando o momento certo pra me mostrar a minha verdadeira utilidade pra ele, além de ouvir todas as merdas super interessantes que ele tem a dizer.

Apenas quero dizer a ele que eu o odeio, que me arrependo de algum dia ter achado que saberia lidar com uma pessoa tão egocêntrica, e que ser machista não é só bater em mulher. É desprezá-la como uma pessoa pensante. Coisa que ele faz comigo. Quando percebo, já disse tudo aquilo para ele, vomitando o meu ódio e minha frustração em seu colo.

Sinto meu rosto queimar em raiva e o suor brotar nas minhas têmporas. Estou de olhos arregalados e ofegante como se tivesse dado a volta pelo prédio sendo que tudo o que eu fiz foi falar. Abrir a boca e deixar despejar algumas letras juntas, algo tão fácil quanto escovar os dentes, mas que estava tão preso dentro do meu peito que me tirou toda a energia que ainda restava em mim. Eu havia me libertado.

Ele olha para mim como se eu tivesse lhe dado um tapa na cara. Acredito que teria doído menos, e consigo sentir o prazer em derrubá-lo. Sei que se demorar mais ali, terei que ouvi-lo engasgar com todos os argumentos vazios dele de que eu estava louca, de que ele não era machista. Terei que lidar com minha vontade de rebater e a sua insistência em me interromper como se tudo o que eu tivesse para dizer fosse inútil, coisa que ele já provou acreditar durante todo aquele dia. Terei que passar raiva por algo que eu já entendi ser completamente dispensável para mim.

E então, eu escolho ir embora. Ergo as sobrancelhas em sua direção, um sinal de adeus, e viro de costas. Me despeço não só de um cara babaca, mas do silêncio, da tortura em me conter, da subestimação. Sinto o poder dos meus pensamentos revivendo dentro de mim, e estou pronta para gritá-los para fora novamente. E não vou parar.

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