Um organismo e seu infinito

Poucas vezes estive de frente a mim.

Não me encontro no reflexo do espelho decorado de meu banheiro, nem no reflexo escuro do café que sempre encaro longinquamente antes de bebê-lo inteiro. Não me encontro nos risos que causo, nas lagrimas que limpo ou nos passos rápidos que insisto em dar para onde quer que vá. Por um tempo, achei que me encontrava no brilho perolado do sorriso de minha cria, mas hoje sei que foram relances clandestinos, me enganando. Veja bem; na gargalhada de meu filho, sou quem melhor pude ser para ele. Conheço bem as pessoas que sou para os outros e me cruzo com elas infinitamente, a cada respirar humano que infla esse planeta. Sinto-me o macacão do Homem Duplicado, camaleando-me para melhor perambular o mundo e convidar o mundo a perambular em mim. É tão arisco, o ser humano! Demoramo-nos umas boas três, quatro máscaras até sentirmos conforto e relaxemos um pouco perante expectativas sociais. Tenho poucos amigos que viram a verdadeira eu e permanecem em minha rotina e, até entre nós, que verdadeiramente amamos uns aos outros além romantização, temos que ter cuidado de tempo em tempo. Afinal, meu Eu de agora é além do que Eu fui cinco minutos atrás, e constantemente tento lembrar que o mesmo vale aos Eles que me cercam. Quão largo é o abismo entre o que vemos e o que nos deixam ver?

Poucas vezes estive de frente a mim. A última vez foi em um banho triste, a água quente enrubescendo minhas costas largas, o corpo nu se abraçando sem perceber, os olhos tão fechados para chorar em paz que, como quem sente saudade de si, abri um terceiro olho, localizado na parede de piso do meu banheiro, e me vi. Vi meu rosto, que vejo poucas vezes por dia. Vi o ângulo que minha espinha faz em minha lombar quando estou parada de costas. Vi que estava com os nós dos dedos brancos, tamanha a força que usava para me agarrara dentro do jato d’água. Vi que tenho os olhos de meu filho. Vi que tenho os cabelos de minha falecida avó. Vi que um dia terei uma filha que me ensinará mais sobre ser e respeitar mulher do que qualquer feminismo que passei a vida a estudar por ela e por mim. Vi que sou o homem dos romances que li, não a mulher, e vi que quando tinha três anos, senti o cheiro de sala de aula pela primeira vez – aquela mistura de E.V.A. colorido, giz branco girando pelos ares em um furacão que eu enxergava no ventilador de teto e suor de professora que correu pra pegar ônibus… Eu me vi. Existo onde não existe tempo e espaço quando me vejo. Como um hiperventilar quando se escreve frenética, como encarar um homem na rua enquanto ele pensa numa cantada rude pra te mandar até que ele perca a voz, como lembrar de uma memória de infância pela primeira vez. Quando consigo prolongar o momento suficientemente, vejo meu corpo virar um jogo de sombras e passo a ser um prisma, com meu corpo criança, meu corpo adulto e meu corpo de idosa que posso ou não vir a ser. Queria lembrar aos que se interessam sobre a importância em se buscar dentro de si. Seja um momento de pura tristeza, felicidade, incerteza ou anestesia completa… Fechemos os olhos e procuremos nos ver além de reflexos materiais e idealizações sociais.

Ergo meus olhos e encaro as nuvens do fim da tarde, as quais me leem o relato sobre meus ombros nus.

– Você se vê como a célula única de vida que a gente diz ver em você?, pergunto ao mundo.

A primeira mancha rosa do pôr do sol aquarela horizonte. Um mundo corado de vergonha ao olhar pra si e debater com seus fragmentos.

acidAna Espinosa Horn, 25 anos, acadêmica de Letras e professora de língua inglesa. Brincando de desmontar signos e significados desde antes da puberdade.

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