#StayYellow: O meu paraíso.

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Eu estou no meio da multidão. Nela, eu tenho meu espaço. Não apenas o espaço que eu ocupo, mas o espaço das minhas diferenças em relação a todos à minha volta. Vivo a vida com a minha cabeça me transportando em pequenos flashes para o meu mundo de êxtase, em que eu sou a rainha e tudo está de bem comigo. Lá, o meu corpo é o meu maior sinal de paz. Paz comigo mesma, eu quero dizer. Tento viver no mundo dos outros com a mesma confiança em que eu vivo no meu. É um exercício que eu aprendi a fazer com a praticidade e inocência de uma criança sem nada com que se preocupar. Às vezes, eu ainda consigo me surpreender com essa minha capacidade.

Me olhei várias vezes no espelho antes de sair de casa naquele dia. Reparei em cada centímetro meu, alguns ocupados pelos tecidos e costuras; outros, apenas de carne, gordura, pele e osso. Passeei com meus olhos sonolentos por cada curva. Pelo meu quadril avantajado, minha cintura fina, minhas coxas grossas e a ausência de espaço entre elas. Pelo tronco delicado e feminino. A regata M me ajusta e mostra a desproporcionalidade da minha forma, em que os pneuzinhos estão presentes, mas os seios estão ausentes. A cintura alta dos meus jeans define o meu corpo de uma forma quase poética, e não tem um instante em que eu não me olhe no espelho e não me sinta orgulhosa de tê-los adquirido. Eles parecem intrínsecos ao meu corpo. Eu e ele somos eternos namorados. Naquele momento, é quase impossível me incomodar com o fato de eles serem tamanho 46. Tamanho não é documento, eu penso ao amá-lo em volta de mim.

Eu caminho pelo mundo me sentindo perfeita, tudo dentro e fora do lugar. A pose ereta, os quadris balançantes no ritmo hipnotizante de um desfile. Entro tanto no meu personagem empoderado, que é quase impossível de não se reparar, e me contento por deixar explícita a autoconfiança que sempre quis ter quando algum dos meus amigos me nota.

“Eu amo o seu jeito de andar desfilando. Queria andar assim que nem você.”

Eu rio, corada, fingindo não saber do que ele está falando.

“Mas eu só tô andando.”

“Minha querida, você tá seduzindo esse lugar inteiro.”

E é incrível pensar que talvez eu esteja fazendo aquilo mesmo. É de uma energia intraduzível, forte o bastante para ser insuportável, tão presente na minha corrente sanguínea ao ponto de me dar pequenos choques de euforia. Faço poses descontraídas e espontâneas, me exibo de uma forma que eu sinto vergonha de fazê-lo normalmente. Sinto minhas calças se apertarem na minha barriga como se me abraçassem em comemoração. Meu peito se enche de ar, egocêntrico, arrogante, e não me sinto mal. Aquela noite é das minhas formas. Estou longe do padrão, mas estou além de satisfeita. Tudo estava fora do lugar, e eu amava.

Aí, passou.

Eu acordo, inebriada debaixo dos lençóis. Apenas minha cabeça tem forma para mim. Meus braços, pernas e ombros não têm peso. Não assimilo quem eu sou. Naquele instante, apenas um corpo flutuando em um colchão, longe de existir. É um bom sentimento perto do que está por vir. 

Eu assusto aquele limbo de perto de mim ao me levantar. O espelho está ao lado da minha cama, e nele, tenho o primeiro contato com a realidade. Furos, furos e mais furos. Não verdadeiros furos, que sangram e me matam aos poucos, mas furos que formam depressões na pele das minhas coxas, que tornam o caminho mais difícil, como uma estrada esburacada. Seria tranquilo se eu me referisse àquela dificuldade só no sentido literal, mas vai além do que realmente é. Elas me matam, sim, mas de desgosto.

Esse é o meu dia ruim, eu penso, fitando obcecadamente o acúmulo de gordura no meu estômago, o qual o short do pijama não cobre nem que eu o puxe para próximo dos meus seios. Viro de lado. Pareço um monte de lama empilhada e pronta para servir para uma escultura. Viro de costas. A grossura das pernas e os furos nelas apagam o meu amor pela minha parte de trás. As dobras das costas se mostram quando eu me torço levemente para o lado. Os braços parecem dois pães. Quero arrancá-los com uma faca. É o único pensamento que me vem na cabeça.

Visto mangas longas naquele dia. Nenhum decote à vista. Os jeans são pretos e discretos. Evito de abrir o Instagram e me deparar com vales formados pelos seios sem sutiã, as peles lisas em biquínis. Até rio sozinha com a possibilidade de eu entrar em algum deles no próximo verão. Só consigo me imaginar debaixo das cobertas, o ar condicionado cobrindo qualquer resquício de calor e oportunidade de me expor além do que as pessoas precisam ver. Ninguém quer me ver em um biquíni, ninguém precisa ter a visão das pelancas do meu quadril saindo pra fora do tecido. Todo mundo está bem comigo longe desse cenário. Eu estou bem fora desse cenário. Quer dizer, é melhor eu ficar de fora dele para não me sentir ainda pior.

Quando chego em casa, me deparo com aquela visão novamente. A visão das gorduras, das coisas minimamente caídas, dos pequenos relevos e depressões. O flashback das vezes em que eu tentei entrar em uma calça 44 me assombram por alguns milésimos de segundo, e eu luto contra o ar que me falta. Arranco minha roupa, e me encaro como uma mãe encara um filho para chamar-lhe a atenção sem precisar abrir a boca. O sutiã sem bojo é uma arma para eu não tentar forçar os meus seios a formar o desenho perfeito de um vale. Me dá a falsa sensação de que eles apenas são pequenos, e eu me agarro àquela verdade. A calcinha de cintura alta esconde tudo. Esconde o excesso. Me dá o formato de pêra que eu quase sempre amo em mim mesma. E os furos continuam ali. Ninguém se preocupou em fechá-los, apesar de eu saber que aquilo depende só de mim.

Eu posso vestir 44 se eu quiser. Posso vestir 40, 38, até um 36 se eu me esforçar tanto. O “problema” (pra não dizer “a solução”) é que eu não quero isso. Não quero me desvencilhar das curvas da minha beleza porque alguém acha que eu preciso, porque alguém botou na minha cabeça em algum momento da minha vida que é aquilo que vai me fazer realmente feliz comigo mesma. Eu não quero dar aos outros a felicidade de me ver entrando nos seus moldes porque eu mesma não fui capaz de enxergar o lindo naquilo que eu sou. Não quero dar a eles o prazer de me ver jogando no lixo as lembranças dos dias de vaidade, de deslumbramento, em que eu não precisava me mutilar e me esconder de ninguém. Em que eu empinava o meu quadril e botava a mão na cintura. Não quero abrir mão do meu andar rebolado, da minha excentricidade, da sensação sufocante que é estar me sentindo maravilhosa.

É esse pensamento que me mantém do jeito que eu sou, no meu manequim, quando os dias ruins me perseguem. O pensamento contrário à escravidão dos corpos, à perda da minha identidade. A ideia de que eu sei me sentir perfeita, de que eu não preciso travar uma guerra comigo mesma, de que eu vou estar me matando se fizer isso. De que eu vou estar destruindo todo o mundo que eu mesma criei.

E então, eu confio em mim mesma.

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