#StayYellow: Visita surpresa.

Os lençóis da minha cama se desprendem do colchão em ondas roxas e amassadas por baixo das minhas coxas. O sol ainda não me cutucou para dizer que o dia tinha começado, mas eu já sei. É a terceira vez que eu acordo só na passagem de ontem para hoje, e eu estou cansada. Me sinto assim com certa frequência, e que já saiu da categoria ‘comum’. Sei disso porque me espanta o pensamento de me sentir diferente de como eu me sinto. Não me lembro do que eu deveria ser normalmente. Eu não estou normal. O que acontece comigo não é normal. A minha cabeça não está normal. Estou longe de qualquer sinônimo dessa palavra, e isso não me causa mais reação alguma.

Pisco devagar. É como se uma multidão tivesse passado por cima de mim. Não só sobre o meu corpo levemente contraído na cama, mas da minha alma, triturando pedaço por pedaço as partes lúcidas do meu cérebro. E quando eu vejo, já estou há vinte minutos na mesma posição, encarando o mesmo ponto inexistente, com o mesmo pensamento em vista: o nada. Sentindo a mesma coisa: nada.

Eu sou nada. Eu sou tudo o que não me faz existir, tudo aquilo que me impede de ser alguém importante. É o que minha cabeça insiste em me dizer, em me convencer. Não existe nada que eu possa fazer para mudar. Minhas habilidades são nulas, meus sonhos são idiotas, e esse é o meu único destino. Deitada na cama, a sombra da madrugada me carregando como uma mãe desesperada para me jogar em algum lugar que não seja de sua responsabilidade. Porque ela já está indo embora, mas eu fico. Eu fico para enfrentar o que me espera, ou para ignorar, coisa que eu faço de melhor.

Meu futuro sofre um corte a cada suspiro sonolento que eu solto, a cada momento em que eu acordo assustada de uma soneca e me lembro que não tenho por que sair dali. E quando assimilo as coisas que deveria estar fazendo ao invés de fingir não existir, eu finalmente acordo. Com um soco invisível no estômago, apertando o meu botão vermelho.

Sinto tudo disparar ao mesmo tempo; meus batimentos, as glândulas de suor, as lágrimas sufocadas. Meu grito é tão silencioso quanto a doença que me atinge. E apesar de ter companhia em casa, me sinto sozinha. Apesar de meu celular apitar a cada dois minutos com uma mensagem nova, eu não quero falar com ninguém. Todas aquelas mensagens falam o que eu já sei. Elas me desgastam, exigem um lado meu que eu não tenho forças para entregar. O lado otimista, materno e altruísta. O único lado meu que eles aceitam, porque, por muito tempo, foi o único que eu admiti ter.

Desse jeito, por alguns minutos, eu me agarro ao meu desespero. Não quero estar em lugar algum, muito menos dentro de mim. Sinto o dia indo embora e eu ainda não tirei os pijamas. As pessoas se aprontam para viverem seus enredos, e eu permaneço estática, uma pedra próxima a rachar. Sei de onde isso vem, mas o motivo nunca foi óbvio, nem nunca será.

A depressão tem o controle da roleta do tempo da minha vida, e o sorteio escolhe qual o dia em que ela me fará uma visita. Eu costumava encará-la com a vizinha inconveniente que resolve tocar a campainha no horário do almoço de domingo, mas hoje sei que ela é um membro da família que vem passar alguns feriados comigo e resolve sempre fazer surpresa. Tive de aprender a prever quando ela viria, a recebê-la, e o mais difícil, a acalmá-la. E como todos os dias em que sou acometida com sua visita, é um processo; existe o momento de desânimo, o frenesi e, por fim, o acomodamento. Esse último é o que mais demora para me atingir. Ele só vem quando eu consigo me sentar e respirar fundo. E é o que eu faço.

Em um minuto de coragem, me ergo na cama e sento em sua beirada. Meu guarda-roupa me encara, eu o encaro de volta, quase podendo ouvi-lo estremecer em animação. Permaneço assim por um minuto e meio, até que fico em pé e me livro dos meus pijamas. Prendo meus cabelos com uma olhadela no espelho, rápida o suficiente para não ter acesso ao meu rosto exausto, e puxo a segunda gaveta do meio.

Todas as camisetas estão dobradas perfeitamente, e aquilo me acalma de forma irracional. Puxo a primeira para não desfazer o formato das outras, uma blusa cinza e larga, e jogo-a por cima do meu corpo. Empurro a porta para o lado, tendo acesso à outra parte do guarda-roupa, onde eu puxo um short largo e confortável. Visto-o rapidamente, e em um segundo desordenado, encaro o chão por baixo dos meus pés. Minhas obrigações diárias passam rapidamente pelos meus pensamentos, mas eu balanço a cabeça, afastando-as com dezenas de nãos murmurados para mim mesma.

Saio do quarto em passos silenciosos, flutuando pelo chão gelado. Não paro para reparar na claridade do dia ao abrir a porta da cozinha e sair para a varanda, e em um momento anestésico, encaro os rabos balançantes dos meus dois cachorros. Me abaixo e deixo que venham até mim, o que eles fazem assim que me veem soltar um sorriso involuntário.

E daquele jeito, sentada no chão da varanda, coçando as orelhas de cães e ouvindo suas respirações ofegantes e alegres, eu me acomodo. Acolho o meu lado debilitado, que procura por um lugar para se abrigar como um gato de rua em uma noite chuvosa, e que se afaga em mim de forma calorenta quando percebe que não exigirei nada que ele não possa fazer naquele dia. E assim, nós existimos.

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